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José Nivaldo Cordeiro
Executivo, nascido no Ceará. Reside atualmente em São Paulo. Declaradamente liberal, é um respeitado crítico das idéias coletivistas. É um dos mais relevantes articulistas nacionais do momento, escrevendo artigos diários para diversos jornais e sites nacionais. É Diretor da ANL – Associação Nacional de Livrarias


O Inacessível Chão

Ontem, depois de concluir o artigo As duas realidades, casualmente escutei a canção gravada pela Maria Bethânia

Ontem, depois de concluir o artigo As duas realidades, casualmente escutei a canção gravada pela Maria Bethânia, “Sonho Impossível”, que eu sabia ser de composição de Chico Buarque de Holanda. A música ficou na minha cabeça, baixei a letra pela Internet e – surpresa – a letra da canção falava precisamente do tema do artigo, do simulacro de realidade que a comunalha cria, perdendo qualquer contato com o real. Será que um comunalha como Chico Buarque teria a perspicácia de captar essa coisa toda, matéria da mais sofisticada análise filosófica? Não podia ser, a canção falava dele mesmo, o propagandista-mor da causa entre nós. Fui atrás.

Descobri que a canção foi o tema de um musical de 1965 na Broadway (“Man of la Mancha), obviamente baseado no romance de Cervantes, cuja obra é comentada por Voegelin no livro HITLER E OS ALEMÃES como exemplo gnóstico da criação do mundo paralelo, como só a literatura é capaz de fazer. Claro que o comunista tupiniquim só escreveu a versão. O CD que tenho da Bethânia omite que se trata de mera versão. O poema original é de W.H. Auden, mas a letra foi adaptada pela dupla Joe Darion/Mitch Leigh. Captaram brilhantemente a obra do romancista espanhol, razão pela qual farei abaixo alguns comentários sobre ela.

Vejamos a letra na versão original, em inglês, gravada por muitos cantores importantes, inclusive líricos como Plácido Domingo, mas a versão que marcou época foi a de Elvis Presley, em álbum gravado ao vivo. Ele jamais a gravou em estúdio.

The Impossible Dream

To dream the impossible dream
To fight the unbeatable foe
To bear with unbearable sorrow
To run where the brave dare not go

To right the unrightable wrong
To love pure and chaste from afar
To try when your arms are too weary
The reach the unreachable star

This is my quest, to follow that star
No matter how hopeless,
No matter how far
To fight for the right
Without question or pause
To be willing to march into hell
For a heavenly cause

And I know if I'll only be true
To this glorious quest
That my heart will lie peaceful and calm
When I'm laid to my rest

And the world would be better for this
That one man scorned and covered with scars
Still strove with his last ounce of courage
To reach the unreachable star

Vejamos agora a versão de Chico Buarque de Holanda:


Sonho Impossível

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meul eito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão


“Sonhar mais um sonho impossível”, é isso que essa gente faz. Dá as costas para a realidade como ela é e constrói os moinhos de vento para lutar contra eles. “Lutar quando é fácil ceder”, aqui é a inquietude do revolucionário que quer transformar o mundo. Para que ceder à realidade? “Vencer o inimigo invencível”, a revolta contra o real terá sempre esse caráter quixotesco. Se o inimigo é invencível, não é possível vencê-lo. Coerência para quê? “Negar, quando a regra é vender”. O ódio à economia de mercado está aqui sintetizado num verso. Esplêndido.

“Sofrer a tortura implacável”. O verso caiu como uma luva para os propagandistas comunistas que batalhavam contra o regime militar, mas o espírito da música original é bem outro. O verso fala da tortura de se manter no universo paralelo ao real, de não ser possível entrar na realidade. A tortura de ser lunático. “Romper a incabível prisão”. Que prisão? O real. Os rebelados do espírito se recusam a viver simplesmente. “Voar num limite improvável”, como só o sonho alucinado permite. “Tocar o inacessível chão”. Que verso! Que obra prima! A recriação aqui é esplêndida! Essa gente não tem como tocar o chão, pois a realidade não é atingível por sua mente doentia.

“É minha lei/é minha questão/virar esse mundo/cravar esse chão”. Loucura total. Cravar o chão é morrer, o lunático gnóstico sabe que em suspenso no espaço só resta acontecer o que aconteceu ao funâmbulo de Nietzsche, no Zaratustra. É estatelar-se no chão, morrer. “Não me importa saber/se é terrível demais”. Esses lunáticos são todos suicidas, homicidas, genocidas. Rebeldes contra a Criação. “Quanta guerra terei que vencer/por um pouco de paz”. A guerra pela guerra. Abandona a paz inicial para tentar voltar à condição original. Completa loucura.

“E amanhã, se esse chão que eu beijei/for meu leito e perdão”. Como o funâmbulo de Nietzsche, ele sabe que tudo que sobe, desce. Vai morrer. Sabe que o chão é seu leito de morte, é como reentrará na realidade, na forma de um cadáver. “Vou saber que valeu delirar/e morrer de paixão”. Mortos não sabem nada. Mais um delírio de maluco. Não morrerá de paixão, mas de loucura. “E assim, seja lá como for/vai ter fim a infinita aflição”. E qual é essa? O descolamento da realidade como ela é, que vai acabar, de um jeito ou de outro. “Loco sí, pero no tonto”, como imortalizou Cervantes. “E o mundo vai ver uma flor/brotar do impossível chão”. Servirá de adubo. É o que restará sempre de realidade aos gnósticos incendiários em sua rebelião contra Deus.


Data de Publicação: 04/05/2008
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